11 de abril de 2018
publicado às 21h57
Da Carta aos Brasileiros ao discurso no Sindicato dos Metalúrgicos

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Por Cesar Maia – O marqueteiro vitorioso em 2002 insistiu com Lula e o PT que, para ganhar as eleições, deveriam suavizar o discurso. Daí saiu a Carta aos Brasileiros, uma espécie de compromisso (formal) democrático de respeito às instituições e às leis. E assim foi. Veio a vitória eleitoral. A continuidade da política econômica do governo anterior servia para demonstrar -ao distinto público- que o compromisso da Carta aos Brasileiros era para valer.

Mas, em pouco tempo, a reação interna cresceu. O ministro José Dirceu, numa reunião na sede do PT com dirigentes e militantes, justificou as medidas. Uma câmera oculta de uma emissora de TV divulgou o discurso que não poderia ser aberto. Nele, José Dirceu afirmou às companheiras e aos companheiros que tivessem paciência. Que a “correlação de forças” não permitia avançar muito naquele momento.

E, por isso, a política econômica cumpriria os “compromissos” com as instituições, as leis e a democracia. Mas a política externa retrataria a verdadeira política do partido. Ao lado do ministro de relações exteriores, na função de assessor especial do presidente, foi nomeado Marco Aurélio Garcia, um co-ministro de relações exteriores. E assim foi integrando o governo de Lula aos de Chávez, de Castro, de Ortega, de Correa, de Morales, do Irã e até da Líbia…

Enquanto a economia seguia seu rumo empurrada por um ciclo internacional favorável, as críticas à política externa ficavam meio desapercebidas, quase circunscritas aos especialistas.

No nível interno, o governo Lula-Dirceu entendeu que havia a necessidade de comprar parlamentares de forma a que se pudesse “legislar” por decreto e ocupar a máquina livremente. No início do segundo ano de governo isso ficou claro e foi sendo aberto, progressivamente, pela mídia e por vazamentos. O núcleo era o gabinete do poderoso ministro José Dirceu. Os vazamentos cresceram e já no primeiro semestre de 2005, com uma bombástica entrevista do deputado Jeferson à Folha de S.Paulo, ficou tudo às claras.

Foi aberta uma CPI e o ministro José Dirceu cassado por conta das denúncias. A CPI deu origem a um processo que ficou conhecido como Mensalão. As provas eram contundentes, com dinheiro sendo entregue na boca de caixa bancário, através de um crime que se imaginava perfeito, via agência de publicidade.

Blindado o gabinete presidencial, as denúncias e provas desintegraram presidentes e executivas de vários partidos, a começar pelo PT. Mas a locomotiva estatal seguia seu rumo. Foram distribuídos amplos subsídios aos movimentos sociais, aos sindicatos, a artistas e a intelectuais…, da casa. E, assim, a base aliada -interna e externa- se tornou gigantesca e plástica.

Era necessário garantir a reeleição e depois novas reeleições. Quando o IBOPE mostrou o crescimento do prefeito do Rio no início de 2005, na época recém reeleito, que já ocupava a segunda posição com folga, foi montada uma fraude através de uma intervenção inconstitucional na saúde pública municipal. Apesar de o STF ter derrubado em seguida essa intervenção, o resultado político havia sido alcançado.

Mas era necessário formar uma chapa imbatível com os dois maiores partidos ocupando a presidência e a vice-presidência. E assim foi em 2008. Com a máquina estatal ocupada partidariamente, com uma amplíssima maioria parlamentar submissa, o poder estava garantido e concentrado.

A crise financeira de 2008 começou a desmontar o uso da política econômica como disfarce e uma abertura crescente para o populismo econômico passar. A assunção de Dilma em 2011 já se deu num quadro que apontava para o desmonte econômico. A economia patinava e a inflação crescia. Começaram as pedaladas de forma a dar lastro ao populismo econômico.

Tudo foi ficando claro e a caixa preta foi sendo aberta até o impedimento da presidenta. Simultaneamente, no início do segundo mandato de Dilma, investigações realizadas pelo Ministério Público e pela Polícia Federal mostraram o “mar de lama” sobre o qual se sustentava esse esquema, o que acabou envolvendo o próprio presidente.

É uma série que começa em 2003. A ilusão de um novo comportamento de Lula e do PT se desmanchou progressivamente. Foram 15 anos até a condenação de Lula, que já havia abatido -em voo- José Dirceu em 2005.

Isso tudo mostra que o desmonte deste esquema impediu o Brasil de entrar num sendeiro chavista, o que seria muito mais grave do que o triplex, que é apenas a ponta do iceberg. O discurso de 7 de abril na porta do Sindicato dos Metalúrgicos, com todos os malabarismos populistas, abriu o jogo na agressão às instituições e à liberdade de expressão. E deixou para trás a Carta aos Brasileiros e o respeito à democracia e às leis.

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