11 de abril de 2020
publicado às 23h50
OUTRA OPINIÃO | Coronavírus e o fantasma da miséria
Ilustração da Peste Negra na Bíblia de Toggenburg (1411) reproduzida do portal História Tudo.

Ilustração da Peste Negra na Bíblia de Toggenburg (1411) reproduzida do portal História Tudo.

Por Júlio Paschoal/Especial para o blog – Passados mais de 20 dias do isolamento social dos brasileiros determinado pelos governos federal, estaduais e municipais, motivados pelo avanço do coronavírus no mundo, as empresas e pequenos empreendedores começam a dar sinais de esgotamento em assegurar postos de trabalho.

Como o vírus não escolhe classe social e se propaga mediante aglomerações de pessoas, os governos de todo o planeta viram no isolamento social o único meio de evitar o contágio e, consequentemente, o aumento no número de óbitos, haja vista que o crescimento de infectados é crescente.

A ausência de remédios e vacina fez com que os chefes de Estado determinassem pelo fechamento das unidades industriais e comerciais, deixando apenas aquelas consideradas essenciais à sobrevivência das famílias.

Alguns setores da cadeia produtiva como indústria de alimentos, bebidas, produtos farmacêuticos, supermercados, farmácias e postos de combustíveis mantém suas atividades. Os demais segmentos econômicos foram obrigados a fechar suas portas. Sem produção e comercialização não há faturamentos, lucros e também recolhimentos de impostos.

Este estrangulamento começa a provocar caos econômico e financeiro. Na escassez o desespero fala mais alto pois o auxílio do governo como sempre, chega atrasado e repleto de burocracia. Enquanto isso, trabalhadores que tem o salário como sobrevivência vai sendo demitidos. O caso mais triste foi de uma fábrica calçadista em São João Batista na Grande Florianópolis onde 1,2 mil funcionários foram dispensados. Foi um baque em um dia na economia do município.

Na mesma linha outras empresas de maior ou menor porte tem adotado o mesmo caminho, engrossando a fila de desempregados que já ultrapassa a casa dos 12 milhões de pessoas, podendo chegar a 16 milhões. Para onde vão esses brasileiros? Para o setor informal que já conta com 38 milhões de pessoas. E o que é pior: no isolamento social imposto pelos governos, ficam sem fontes de renda haja vista que os clientes também desaparecem.

As ações dos governos para o setor empresarial, estão atreladas à pandemia do Covid 19. Empréstimos a médio e longo prazo são autorizados somente para financiar folha salarial das empresas que conseguirem manter portas abertas.

A economia brasileira saiu de um processo recessivo em 2019, tendo crescido modestos 1,1%. Com a pandemia pode mergulhar em outro com queda do PIB estimado em 0,9% ou abaixo deste percentual. Se perdurar o fechamento das unidades industriais e comerciais sem que haja uma maior flexibilização, a tendência é aprofundar a crise econômica. Esta situação pode provocar uma depressão não só no Brasil, mas em todo o mundo.

Os pessimistas preveem reflexos ainda mais catastrófico do que o ocorrido em 1929, quando a Bolsa de Nova York quebrou. A diferença entre o passado e agora é que em 1929, o trabalho era permitido, agora não. O isolamento social imposto às famílias limita movimentações de pessoas.

Há saídas? Sim, mas qual seria? Isolamento horizontal para os grupos de risco – idosos, portadores de doenças respiratórias e crônicas – e vertical com regras e critérios previamente estabelecidos. O descumprimento punido com penalidades tanto para empresas quanto aos grupos de riscos.

Fora estas medidas, é enxugar gelo e continuar sentado para assistir o caos econômico. Mesmo que a pandemia seja contida rapidamente, o conceito social pós Covid 19 nunca será o mesmo. Todos teremos que nos reinventar, mudar hábitos em fábricas, nas áreas administrativas, comerciai e familiares.

As regras sociais que guiavam a sociedade estão sendo demolidas. O que era sinônimo de boa convivência como o cumprimento de mãos, abraços e manifestações populares, tende a desaparecer por conta do coronavírus.

Uma nova sociedade surgirá onde a “Vida” terá prioridade sem que se perca o foco na economia. Mas, se a economia afundar colocará nosso modo de vida em uma situação insustentável e desumana. Veremos a violência e a criminalidade grassar a uma velocidade tal, que nenhuma aparato de segurança conseguirá deter. Soma-se a este caos, pedintes, saques, depressões e suicídios. Nenhuma sociedade sobrevive de esmolas e no caos econômico.

JÚLIO PASCHOAL, Economista, Mestre em Desenvolvimento Econômico pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU-MG) e Professor do Curso de Economia da Universidade Estadual de Anápolis (UEG), em Anápolis.
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