19 de abril de 2020
publicado às 23h51
OUTRA OPINIÃO | Salvando vidas dentro de uma economia desgovernada
Reprodução: Instituto Liberal https://www.institutoliberal.org.br/blog/o-mito-liberalismo-como-culpado-pela-crise-de-1929/

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Por Júlio Paschoal – Covid 19, vírus letal que nasceu na China, ganhou o mundo com sua rápida multiplicação infectando milhões de pessoas e ceifando vidas. Não respeita fronteiras geográficas, apelos patrióticos, religiosos e ideológicos, Alcança, democraticamente, ricos, pobres e miseráveis. Rapidamente transformou-se numa pandemia, atingindo além de pessoas, economias desenvolvidas e emergentes como a do Brasil.

Sua letalidade tornou o mundo recluso paralisando atividades econômicas, principalmente pequenas e médias empresas. Muitas delas já fecharam portas por falta de liquidez e consumidores, fonte de receitas que sustentam o mundo capitalista. Na rota do Covid 19, os cenários de incertezas derrubam expectativas e a possibilidade do retorno de investimentos, primordiais ao País.

Se já não bastasse o pânico da população, a falta de maturidade política tem colocado nossos governantes em pé de guerra. De um lado, o presidente da República esgrima com o Congresso, na outra, governadores baixam decretos discricionários exigindo intervenções da Suprema Corte em defesa do cidadão. No meio disso tudo, uma população assustada e sem lideres capazes de apontar rumos seguros.

O egocentrismo e a vaidade sobrepondo o bom senso por pirotecnia política, muitas delas com restrições constitucionais. Para piorar o grau de incertezas da população, um ministro da saúde que virou popstar político, quebra a hierarquia entre seu chefe imediato, o presidente da República. O elevado grau de egos inflados, resultou na demissão de Henrique Mandetta do Ministério da Saúde, mesmo ostentando 76% de aprovação na condução da pandemia.

Todos esses desatinos mostraram um vácuo de ações desintegradas, tendo como único receituário, o isolamento social vertical. Sim, estamos salvando vidas, mas embarcados dentro de uma economia desgovernada ‘matando’ o único meio de sobrevivência para milhões de pessoas, sobretudo de baixa renda.

Fazendo uma analogia histórica sobre a edição do Plano Cruzado implantado em 1985 pelo presidente da República de então, José Sarney e agora com o Covid 19, percebe-se semelhança nos métodos impostos à população. O Plano Cruzado tinha como objetivo combater a inflação dividido em duas fases: a primeira mais rígida tendo o congelamento de preços como principal objetivo. A segunda fase viria dois meses depois sendo mais flexível com ajustes de perdas. O que fez o presidente? Não implantou os ajustes necessários e usou o Plano Cruzado para vencer as eleições. Passado esse momento, descongelou preços, a inflação voltou com força de uma represa rompida chegando a mais de 80% ao mês.

O isolamento horizontal imposto pelos governos federal e estaduais era para durar quinze dias para, em seguida, ser flexibilizado para vertical, mantendo os grupos de risco (idosos, doentes crônicos e com problemas respiratórios) segregados socialmente. Como a estratégia imposta pelos governos estaduais e municipais funcionou apenas parcialmente, as pessoas votaram às ruas para preservarem seus empregos e em busca de sustento.

O socorro emergencial anunciado pelo Governo Federal não chegou na mesma velocidade da fome, principalmente em razão dos critérios colocados. Mais uma vez a famigerada burocracia emperrou uma importante ação governamental. Dos 74,2 milhões que integram o cadastro único, só 52,2 milhões serão contemplados, com isso, 22 milhões de pessoas passarão fome devido a critérios absurdos. O da Receita Federal é o principal deles: quem declarou IR em 2018, com renda superior a R$ 28 mil ou porque tinha alguma dívida com o governo Federal, ficou fora do benefício. Um erro de avaliação política pois quem declarou Imposto de Renda em 2018 e perdeu o emprego, corre risco de passar fome.

Não é hora dos governos cobrarem débitos e sim de criarem meios de sobrevivência em uma economia paralisada. Os governos são vorazes com os mais pobres e usam o poder do Estado para receberem tributos, mas são condescendentes com grandes devedores.

A ausências de planejamento e políticas públicas de subsídios, fiscais e financeiros, centradas em inovações tecnológicas, mostram a falta de capacidade do governo federal em liderar um movimento para recuperar a economia no pós Covid 19. Salvar vidas é importante, mas traçar estratégias para manter a sinergia econômica também deve ser prioridade. O binômio vida e economia são irmãos siameses, um depende do outro para sobreviverem.

A origem do estrangulamento macro econômico do Brasil está umbilicalmente associado aos gastos desenfreados do governo e das famílias. Quanto ao endividamento das famílias, as causas mais acentuadas são a onerosa carga tributária sobre bens de consumo e alimentação, que chegam a 35% do PIB enquanto os investimentos só alcançam 16.%.

Isso tem levado a equipe econômica a desvalorizar o Real frente ao dólar, favorecendo as exportações, principalmente commodities e importar bens de capital como máquinas, equipamentos e componentes. Portanto, as distorções na política econômica tende a prejudicar ainda mais o desempenho da economia brasileira. Soma-se esta situação, a ausência de planejamento para qualificar o crescimento econômico pós pandemia do Covid 19.

JÚLIO PASCHOAL, economista, mestre em desenvolvimento econômico pela UFU-MG e professor do curso de economia da UEG em Anápolis
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