Para Dilma, Delcídio cometeu “erro grosseiro” Governo teme paralisia; é provável delação de senador

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Presidenta Dilma R.Fabio Rodrigues Pozzebom/22.10.2015/Agência Brasil
Presidenta Dilma. Foto: ( R.Fabio Rodrigues Pozzebom/22.10.2015/Agência Brasil)

Por Kennedy Alencar( Brasília) – Numa reunião no final da manhã de ontem, já perto do meio-dia, a presidente Dilma Rousseff disse que o senador Delcídio do Amaral (PT-MS) cometeu “um erro grosseiro” ao tentar negociar proteção com Bernardo _filho de Nestor Cerveró, ex-diretor da Petrobras.

Em conversa com ministros, Dilma discutiu a prisão do senador. Ela demonstrou surpresa, mas também abatimento. Dilma tem boa relação pessoal com Delcídio. Gosta dele.

Para a presidente, o senador acabou caindo numa armadilha e adotando uma atitude indefensável. Ou seja, não há margem nenhuma para o governo defender Delcídio.

O PT, que sempre recebe a carga maior do desgaste da Lava Jato na comparação com a presidente, desvinculou-se rapidamente do senador. Teve uma reação dura, negando solidariedade.

O poder de Delcídio estava mais ligado ao prestígio junto à presidente do que a uma rede de apoio partidário. O suporte de nove senadores do PT contra a decisão do STF de prender Delcídio deve ser entendido, na sua maioria, mais como um ato de solidariedade de colegas que poderão ser vítimas da Lava Jato do que como apoio partidário.

Risco de paralisia do governo

Neste momento, a maior preocupação do governo é evitar paralisia de votações no Congresso, o que já não andava fácil. Mas impedir também paralisia administrativa.

O governo havia ganhado fôlego recentemente no Congresso. A gestão política e administrativa melhorou com Jaques Wagner na Casa Civil e Ricardo Berzoini na articulação política. Mas um fato como as prisões de ontem tira energia do governo.

Não foi possível avançar na votação da meta fiscal de 2015, que precisa ser alterada pelo Congresso para evitar acusação de desrespeito à Lei de Responsabilidade Fiscal. Há projetos que necessitam ser aprovados, como o da repatriação de recursos ilegais. E existem medidas administrativas que devem ser tomadas.

Dilma se comporta como se a Lava Jato fosse passar rapidamente e dar uma trégua ao governo. Há momentos de calmaria, mas essa operação vai durar todo o segundo mandato dela. A presidente precisa melhorar a economia.

Isso significa ter capacidade para negociar um plano fiscal de longo prazo com aliados, setores da oposição, empresariado e sociedade civil. Tem de ter capacidade de articulação. Mas Dilma é uma presidente que queimou pontes políticas e que não tem repertório para reagir a uma crise desse tamanho.

O que vimos ao longo de 2015 foi uma série de erros políticos que agravaram a crise, que já teria combustível suficiente para ser bem ruim só com a Lava Jato. Exemplos de erros: briga com o PMDB, afastamento do vice-presidente Michel Temer, titubeios e morde e assopra em relação ao ministro da Fazenda, Joaquim Levy, envio de orçamento deficitário, ataques à oposição em momentos em que conseguiu respirar e poderia fazer algum gesto de pacificação. E por aí foi.

Do jeito que está, é bom para a oposição, que vê o governo e o PT se afundarem. É ruim para Dilma, mas é péssimo para o país, porque as crises política e econômica se agravam, com duras repercussões sociais.

O desemprego está crescendo e as previsões econômicas para 2016 só fazem piorar a cada semana. Ou seja, a situação do governo tende a piorar, não a melhorar, como alguns incrivelmente imaginam.

Delação à vista?

Quem conversou com o senador Delcídio antes da prisão relata que ele estava preocupado com os rumos da Lava Jato e se queixando bastante dos riscos que corria. Isso ajuda a explicar a ousadia de tentar planejar a fuga de Nestor Cerveró em troca do silêncio do ex-diretor da Petrobras.

Na atual situação, em que a gravação funciona como uma confissão de crime, o único recurso que pode amenizar a situação do senador é uma delação premiada. Esse tem sido o caminho seguido pela maioria dos principais personagens que foram sendo pegos, com exceção de alguns executivos de grandes empreiteiras.

Os ministros do Supremo, alguns citados por Delcídio como passíveis de pressão política, deverão ser duros em relação ao senador e outros políticos. Portanto, é provável que Delcídio faça uma delação premiada.

 

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