Marqueteiro não sabia que tinha que declarar conta no exterior, diz defesa

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João Santana, marqueteiro de campanhas eleitorais do PT, foi preso na terça-feira (23) (Foto: STR/AFP)
João Santana, marqueteiro de campanhas eleitorais do PT, foi preso na terça-feira (23) (Foto: STR/AFP)

Por Bibiana Dionísio/Do G1 PR – O marqueteiro João Santana afirmou à Polícia Federal (PF) nesta quinta-feira (25) que não sabia que deveria ter declarado à Receita Federal uma conta bancária que tem no exterior, de acordo com o advogado que o representa, Fábio Tofic. O depoimento durou mais de três horas, na Superintendência da PF, em Curitiba.

Santana e a mulher dele, Mônica Moura, estão presos desde terça-feira (23). Eles são suspeitos de receber dinheiro oriundo no esquema de corrupção na Petrobras desvendado pelaOperação Lava Jato. O dinheiro seria, de acordo com as investigações, pagamento de serviços eleitorais prestados ao Partido dos Trabalhadores (PT).

Santana foi marqueteiro das campanhas da presidente Dilma Rousseff (PT) e da campanha da reeleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em 2006.

Conta
A conta foi aberta em 1998 para receber US$ 70 mil por serviços de campanhas eleitorias realizados na Argentina.

“Na época, ele achou que não tinha problema porque eram recursos recebidos em outro país e, ao longo de uma auditoria recente, ele foi informado que havia essa irregularidade. Ele estava já tomando as medidas, pensando na forma de regularizar esses recursos”, disse Tofic.

Ainda de acordo com o advogado, os recursos recebidos no exterior são pagamentos por trabalhos feitos em campanhas eleitorais em países como Panamá e Angola, além de Argentina.

“Eles não têm absolutamente nada a esconder. Eles já autorizaram, inclusive, que seja aberto todo e qualquer sigilo financeiro e bancário através da polícia”, afirmou Tofic.

O advogado voltou a afirmar que em relação à campanha do PT está tudo declarado à Justiça Eleitoral. Tofic disse ainda que o que precisar ser informado, o casal esclarecerá.

Pagamentos de Zwi Skornicki
Santana negou conhecer o engenheiro Zwi Skornicki, de acordo com o advogado. “O João nunca viu. Disse que a primeira vez que viu foi aqui na carceragem da Polícia Federal. Não tem nenhum conhecimento com este cidadão”, disse Tofic.

As investigações apontam que Skornick era o representante do estaleiro Keppel Fels e repassou US$ 4,5 milhões a Santana. Os procuradores do Ministério Público Federal acreditam que ele era um operador no esquema criminoso na Petrobras e responsável por repasses ao PT por meio do ex-tesoureiro do partido João Vaccari Neto, preso desde 2015 pela Lava Jato.

Ao ser questionado o porquê dos pagamentos por parte Skornicki, o advogado afirmou que Mônica Moura cobrava do Partido Angolano uma dívida e que recebeu a orientação para procurar o engenheiro, que quitaria o valor devido.

“Diz que isso é uma doação ao Partido Angolano. Ela não sabe dizer qual a relação que este cidadão teria com o Partido Angolano, provavelmente, algum interesse naquele país, e que era uma dívida antiga”, declarou o advogado.

Santana negou que os pagamentos realizados Zwi Skornick tenham relação com serviços prestados no Brasil. Além disso, afirmou que nunca manteve qualquer contrato com o poder público no Brasil.

O engenheiro Skornicki teve a prisão preventiva decretada pela Justiça nesta 23ª fase da Operação Lava Jato. Ele também está detido na carceragem da Polícia Federal em Curitiba. Ao G1, o advogado Flávio Mirza disse que não terminou de estudar o inquérito e, por isso, não iria se manifestar. De qualquer forma, pretende pedir a revogação da prisão.

Tofic afirmou também que Santana e Mônica Moura dizem que na área de atuação dele o pagamento é um ponto delicado e que não tem como saber quem efetivou o pagamento. “Você não tem como saber quem está te pagando. Você tem como identificar o valor que foi recebido e saber que o teu cliente quitou a dívida que tinha”.

João Santana diz não conhecer Zwi Skornick (Foto: Reprodução)
João Santana diz não conhecer Zwi Skornick (Foto: Reprodução)

Pagamento da Odebrecht
A Polícia Federal sustenta que a offshore Shelbill (ligada ao marqueteiro) recebeu US$ 7,5 milhões provenientes de propina. Deste montante, US$ 3 milhões teriam vindo da Odebrecht, segundo a investigação.

O advogado Fábio Tofic afirmou que o pagamento pela empreiteira foi confirmado às autoridades policiais e acrescentou que a negociação era desconhecida por Santana.

“A Mônica confirmou que houve, de fato, alguns pagamentos que foram feitos pela Odebrecht em relação a uma campanha no exterior, e o João não sabe disso. O João é um criador, o João não trabalha com questão financeira, com questão bancária. Ele tinha pouco conhecimento de como eram feitos os pagamentos e de como eram os recebimentos”.

A Odebrecht é uma das empresas acusadas de envolvimento no esquema de corrupção e desvio de dinheiro na Petrobras. O Ministério Público Federal apresentou duas denúncias contra executivos ligados à empreiteira, que foram aceitas pela Justiça Federal. Alguns funcionários e diretores da empresa foram presos, inclusive, o presidente afastado Marcelo Odebrecht.

Mensagens de Marcelo Odebrecht
O marqueteiro disse que tomou conhecimento pela imprensa das anotações feitas por Marcelo Odebrecht com referência ao termo “Feira”. João Santana negou ter relação com o apelido e ter recebido valores no Brasil por ordem de Marcelo Odebrecht, presidente afastado da holding Odebrecht S.A. e que está preso desde junho de 2015, quando foi deflagrada a 14ª fase da Operação Lava Jato.

Em uma das anotações investigadas, Marcelo Odebrecht escreveu: “Liberar para feira pois meu pessoal não fica sabendo. Deixar prédios com vaca”. Em outro trecho, Odebrecht afirma. “40 para vaca – parte para feira”. Os peritos concluíram que “Feira” era o apelido de João Santana, que nasceu em uma cidade perto de Feira de Santana, na Bahia. Já “Vaca” era o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, preso desde abril de 2015.

Depoimento de João Santana prestado à Polícia Federal (Foto: Reprodução)
Depoimento de João Santana prestado à Polícia Federal (Foto: Reprodução)

Mudanças no Imposto de Renda
A Lava Jato investiga, na 23ª fase da operação, mudanças feitas na declaração do Imposto de Renda de João Santana. Em 2015, conforme as apurações, ele retificou as declarações dos cinco anos anteriores.

Segundo a Receita Federal, João Santana e a mulher haviam omitido nas declarações anteriores a participação em quatro empresas no exterior – uma na Argentina, uma em El Salvador, uma na República Dominicana e outra no Panamá. O relatório foi enviado para a Polícia Federal e embasou o pedido de prisão do casal.

Depoimento de João Santana prestado à Polícia Federal (Foto: Reprodução)
Depoimento de João Santana prestado à Polícia Federal (Foto: Reprodução)
Depoimento de João Santana prestado à Polícia Federal, parte 2 (Foto: Reprodução)
Depoimento de João Santana prestado à Polícia Federal, parte 2 (Foto: Reprodução)
Depoimento de João Santana prestado à Polícia Federal, parte 3 (Foto: Reprodução)
Depoimento de João Santana prestado à Polícia Federal, parte 3 (Foto: Reprodução)
Depoimento de João Santana prestado à Polícia Federal, parte 4 (Foto: Reprodução)
Depoimento de João Santana prestado à Polícia Federal, parte 4 (Foto: Reprodução)

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